Água em vinho
- L. G. Lopes

- 13 de abr. de 2025
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Atualizado: 13 de abr. de 2025
Era o terceiro dos sete dias do casamento e festejavam como se tivesse recém-começado. Os convidados, vizinhos e curiosos me encurralavam afoitos quando percebiam que eu carregava uma jarra de vinho.
O noivo se aproximou de mim e cochichou: “Por que só você está servindo bebida?”. À minha resposta, ele saiu com a mão na nuca e olhar desiludido.
Logo uma senhora notou sua situação. Pude ler os lábios envergonhados do noivo cederem ao dizer que o estoque de vinho tinha terminado. A senhora pediu que se acalmasse e dirigiu-se até um homem jovem, de barba, cabelos longos e túnica reluzente, que parecia contrariado.
As pessoas cantavam, dançavam, me empurravam de um lado a outro e pisavam em meus pés descalços na ânsia por servi-los. A senhora agora vinha em minha direção, de alguma forma conseguindo trazer consigo os outros serviçais. “Fazei tudo o que Ele vos disser”, pediu com um olhar de mãe que pareceu me abraçar.
Instantes depois, aquele homem aproximou-se com tom de ordem para enchermos de água um conjunto de grandes vasilhas de pedra trabalhada.
Eu sinalizei que precisava que a ordem viesse de meu chefe, o mestre-sala, ou não poderia deixar o posto, mesmo sem nada a servir. Ele sorriu e completou “Então enchei, levai ao mestre-sala e peçam que prove”.
Não parecia higiênico nem coerente pedir que meu chefe tomasse da água de recipientes usados para limpeza de mãos e utensílios, então esperei que algum dos outros serviçais tomasse a frente.
Eram seis vasilhas enormes, cada uma exigindo do esforço de pelo menos dois homens para serem carregadas até o mestre-sala. O suor escorria por sua testa enrugada enquanto ele nos bronqueava por não estarmos seguindo nossas atribuições.
Sendo eu o serviçal em quem ele mais confiava, me fitou esperando por explicações. Travei. Falar que um desconhecido tinha nos dado aquela ordem pareceu muito pior do que simplesmente mostrar o conteúdo da vasilha e pedir que provasse. De pálpebras baixas, respirei fundo esperando pelo pior.
Ele esgueirou-se sobre a cadeira e, curioso pela cor da água, mergulhou sua taça. Em movimentos circulares, admirou o líquido, cheirou, experimentou em uma bicada e esbugalhou as pupilas. “Isso é vinho, e dos melhores!”, gargalhou, já correndo em direção ao noivo.
Adoro a maneira como nos faz mergulhar no contexto e nos sentirmos parte da história.
O milagre contado a partir do serviçal